segunda-feira, 25 de julho de 2022

Os ombros suportam o mundo

Algumas vezes eu consigo chorar um pouco menos, ou até não chorar. 

A saudade me aperta o peito, o arrependimento me faz marejar. Prendo a respiração. Afasto o lampejo de memória. Expiro o ar. Volto a viver. 

Tenho ido à terapia, estudado um pouco de psicanálise, tentado racionalizar a culpa, me afastado de lugares e pessoas que hoje só me trazem ansiedade. Nem sempre é fácil.

Hoje, o que me deu vontade de chorar foi outra coisa: quão desumano é tudo isso por que tenho passado? Olho pra Abril, pra Maio, pra Junho, pro mês de agora e percebo — que vida é essa em que só se tem ânsia de morrer? Em que só o medo e o pavor são cultivados. Onde a culpa impera, imbatível.  Por que de novo? Por que tantas vezes?

"Não tô me sentindo muito bem", consigo ouvir a minha voz me dizer isso mentalmente assim como me vejo chorando, assustada, com a pressão baixa, a sensação de vertigem tomando o corpo, o tremor das mãos e pernas, a sensação de que o coração é corrído e de que os ombros suportam o mundo.

Quantas vezes eu entreguei a minha vida aos outros desse jeito? Quantas vezes eu chorei, solucei, vomitei, implorei, me doei e autoflagelei pra que meus sentimentos fossem válidos? Na tentativa inútil de que alguém no mundo acreditasse em mim, quando nem eu acredito. 

Promessas vazias e repetidas de que nunca mais vou me deixar chegar a esse ponto. Todas em vão, obviamente. O ciclo nunca tem fim. Todo dia é um pesadelo. Quando estou começando a me recuperar —bum! eu me entrego inteira, me ponho nas mãos de alguém que não suporta o peso excruciante da minha existência. Tudo porque não me suporto. Eu mesma não me suporto.

Mas quero suportar.

Por Deus, precisa chegar o dia em que vou ficar bem. O dia em que vou me relacionar de maneira saudável com outras pessoas. O dia em que vou parar de romantizar como amor incondicional o meu sacrifício por outro alguém. Não quero que ninguém morra por mim. Então, por favor, Deus, eu não quero morrer por ninguém. Porque é tão horrível sentir que tem o mundo em mãos e de repente perder tudo. Perder tudo e se culpar tanto. Foi um erro, eu sei. Catastrófico —pode ser. Mas eu mudei. 

Chega de dor.

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