quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Pai

Por onde você anda?

Já faz algum tempo que não tenho notícias suas. Quase dois anos, pra ser mais exata.

Honestamente falando, nunca senti a sua falta. Você nunca esteve presente mesmo. O que sinto por você é simpatia parental, eu acho. Não te amo, e nem gosto de você. Não te conheço. Não sei se você é ou não uma boa pessoa, um bom homem — não chegou nem perto de ser um bom pai ou bom marido —, mas não parece ser de todo o mal. 

Tive uma conversa com uma colega do trabalho desses dias e achei incrível como ela descreveu o teu tipo com poucas palavras. Achei que você ainda estivesse se esforçando um pouquinho quando me comprava um chocolate Garoto (que, por sinal, eu odeio) e cartões de aniversário e natal no posto de gasolina aqui perto de casa, pra compensar os dez minutos que você passava comigo antes de dar uma desculpa qualquer pra ir embora o quanto antes, mas aparentemente isso é um comportamento padrão de pai ausente. Eu até ri um pouco, mas na verdade fiquei meio chocada.

Enfim...há meses tenho pensado em você, o que é incomum. Em tempos de pandemia, no entanto, acho que não poderia ser diferente. Fico me perguntando se você está bem, se está vivo, e percebo que quero muito que esteja em segurança. 

Não me entenda mal. Eu não te amo, nem acho que você me ame. Mas uma verdade amarga eu sempre tive comigo: a de que nem vou saber se você morrer. Menos ainda vou ao seu enterro. Seria uma confusão, não é mesmo? Me consolo pensando que você nunca fez por onde pra ter a minha companhia, me conhecer, ser meu pai. Mas agora estou com um pouco de medo.

A verdade é que eu queria ter um pai de verdade. Queria que eu fosse uma pessoa de verdade pra você, e não só uma "obrigação" que você nem cumpre. 

Espero que esteja bem, apesar de tudo. 


Um comentário:

  1. Oi, Amanda!

    Obrigada pelo comentário lá no blog (embora eu esteja retribuindo semanas depois, perdoa). Achei curioso chegar no seu blog e me deparar com um texto sobre "pai", porque hoje foi a primeira vez que voltei no cemitério onde o meu está enterrado em 4 anos. Coincidência bizarra, não é???

    Lendo seu texto, acho que talvez você só seja alguém com empatia, sabe? Mesmo que não tenha sido um pai "de verdade", presente, que tenha significado algo na sua vida, é o que você tem, e não é porque você não ama uma pessoa que necessariamente deseja o mal a ela. Acho que desde que não seja um sentimento que te faz mal, tá tudo bem, né?

    Espero que você esteja ok com isso e que a escrita tenha ajudado <3 um beijo!

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